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A importância do tédio

A importância do tédio

Imagina comigo esta cena: você está em uma fila ou aguardando sua vez no consultório médico e fica ali olhando para o tempo e esperando pacientemente o momento de ser atendido, mergulhando em seus pensamentos ou observando o ambiente. É assim que você age, certo? Provavelmente não! Possivelmente você pega o seu smartphone para passar o tempo ou resolver coisas do trabalho enquanto espera. 

Nossos filhos nasceram nesse contexto de velocidade de informações e estímulos onde o nosso tempo “precisa ser preenchido sempre”. Mas hoje quero te trazer uma informação relevante: o tédio é importante para o desenvolvimento deles – e nosso. Momentos de pausa, de ausência de estímulos e propostas levam o nosso cérebro a buscar novas alternativas, e quando fugimos das tradicionais (assistir TV ou ficar no celular) a criatividade entra em ação para proporcionar uma nova experiência. 

Quero te contar um exemplo para ilustrar isso: minha filha tem um cabelão cacheado maravilhoso, porém trabalhoso, que às vezes demora para ser penteado após as lavagens. Por causa do tempo em que ela tem que ficar sentada esperando que eu ou o pai terminemos o árduo trabalho é comum que ela peça para assistir alguma coisa. Depois de um tempo permitindo esse comportamento, parei para pensar que havíamos criado um padrão na sua mente: toda vez que eu pentear o cabelo preciso assistir desenho para me entreter. Lembrando da importância do tédio comecei a oferecer outras opções: brinquedos ou livros e depois de um tempo passei a simplesmente não fazer nada.

Tem sido uma experiência interessante: enquanto eu penteio o seu cabelo já vi ela se ocupar com pentes que se transformaram em aviões ou facas cortando legumes; já vi ela gastando alguns minutos esticando a meia para ver até que parte da sua perna ela conseguia chegar, ou sussurrando alguma canção.  A falta de propostas fez com que ela buscasse alternativas criativas para se entreter.

Não sou contra tecnologia e nem contra a prática de oferecer opções de atividades para os seus filhos, mas vez ou outra lembre-se de deixá-los à mercê do silêncio e das brincadeiras propostas para ver o que pode surgir. Este texto também não é sobre deixar eles brincando sozinhos o tempo todo “se virando” sem a ausência dos pais. Equilíbrio é tudo.

Grave esta frase: o tédio alimenta a criatividade. Permita-se passar por ele e permita que seus filhos o experimentem. Ele também é importante para ensinar as crianças a autorregular suas emoções, pois precisam buscar alternativas ao invés de simplesmente olhar para uma tela. 

Eu sei que não é fácil exercitar essa prática, mas o conhecimento vai te fazer perceber que em alguns momentos nós atrapalhamos esse processo na vida dos nossos filhos sem intenção. Aqui em casa já me peguei interrompendo um momento criativo da minha filha brincando com as bonecas no banho porque achei que colocar uma musiquinha ia fazer com que ela se divertisse mais. Porém, ela simplesmente parou de conversar com as bonecas para ouvir a música.

Se você mexe no celular enquanto espera, tudo bem. Se seu filho assiste desenho enquanto estão no restaurante, tudo bem. Mas experimente falar com Deus enquanto espera, refletir sobre si, ou apenas observar o céu e o ambiente à sua volta. Experimente deixar o seu filho brincar com um guardanapo ou contar os sachês que estão na mesa do restaurante. 

Equilíbrio é a chave, não esqueça! “Meu filho, guarde consigo a sensatez e o equilíbrio, nunca os perca de vista” (Provérbios 3.21).

:: Junnia Rodrigues

Junnia é mãe da Elis, e apaixonada pelo universo da maternidade e criação de filhos. Esposa do Pr. Lucas Rodrigues, Psicanalista e Coach Infantil. Atuantes na Lagoinha Santa Efigênia, em Belo Horizonte.

Foto: unsplash